Desmond Tutu: Quero o direito a acabar com a minha vida através da morte assistida

Desmond Tutu disse que queria ter a opção de terminar a sua vida recorrendo à morte ajudada ao mesmo tempo que apelou aos políticos, legisladores e dirigentes religiosos para que tomem medidas sobre o tema.

Num artigo publicado no seu 85.º aniversário, esta sexta-feira, e depois de várias estadias no hospital este ano por infeções recorrentes, o arcebispo emérito da Cidade do Cabo e ativista anti-apartheid confirmou o seu apoio à morte assistida, revelada em primeira mão no Guardian em 2014.

“Com a minha vida mais perto do fim do que do seu início, gostaria de ajudar a dar às pessoas dignidade na morte”, escreveu no Washington Post.

“Tal como defendo firmemente a compaixão e a justiça na vida, creio que os doentes devem ser tratados com a mesma compaixão e justiça quando se trata de sua morte”, acrescentou.

“As pessoas quando estão a morrer devem ter o direito de escolher como e quando deixam a Mãe Terra. Creio que, a par dos admiráveis cuidados paliativos que existem, as suas escolhas devem incluir uma morte ajudada digna”.

Tutu mudou de ideias sobre o suicídio assistido há dois anos após uma antiga oposição mas tinha permanecido a dúvida sobre se ele pessoalmente escolheria pedir a morte.

Afirmou: “Hoje, que estou mais perto das partidas do que das chegadas, por assim dizer, os meus pensamentos centram-se no modo como gostaria de ser tratado quando chegar o momento. Agora mais do que nunca, sinto-me compelido a juntar a minha voz a esta causa”.

Ele acreditava na santidade de vida mas também que os doentes terminais não devem ser obrigados a suportar dores e sofrimentos terríveis, escreveu. Em vez disso devem ter controlo sobre o tempo e o modo da sua morte.

Depois acrescentou: “Estou preparado para minha morte e deixei claro que não gostaria de ser mantido vivo a todo o custo. Espero ser tratado com compaixão e que me permitam passar para a próxima fase do caminho da minha vida da forma que seja escolhida por mim.”

Tutu referiu-se às leis da Califórnia e Canadá que permitem a morte ajudada de doentes incuráveis. Mas “ainda morrem milhares de pessoas em todo o mundo a quem é negado o direito de morrer com dignidade”.

Disse: “Para aqueles que sofrem terrivelmente e chegam ao fim da sua vida, basta saberem da hipótese de uma morte ajudada no seu caso para terem um conforto incomensurável.”
E concluiu: “Recusar às pessoas que estão prestes a morrer o direito de morrer com dignidade, não bate certo com a compaixão encontrada no coração dos valores cristãos. Rezo para que políticos, legisladores e dirigentes religiosos tenham a coragem de apoiar as escolhas que os cidadãos doentes terminais fazem quando deixam a Mãe Terra. A hora de agir é agora”.

Tutu, que ganhou o prémio Nobel da Paz em 1984, foi internado no hospital várias vezes e recentemente em setembro, por infeções recorrentes na sequência da cirurgia a um cancro da próstata.

A morte assistida é legal na Suíça, Holanda, Luxemburgo, Albânia, Colômbia e Japão bem como no Canadá. Vários estados americanos adotaram medidas sobre morte assistida, incluindo Washington, Califórnia, Oregon, Vermont e Novo México.

Em setembro do ano passado o parlamento do Reino Unido rejeitou uma proposta de leique permitia a morte ajudada de doentes terminais, com 330 deputados a votarem contra e 118 apoiando a medida, apesar de uma sondagem ter mostrado que era apoiada por 82% do público. A mesma sondagem sugeriu que 44% das pessoas iria infringir a lei ajudando um ente querido a morrer e arriscando uma pena de prisão até 14 anos.

Justin Welby, o Arcebispo de Cantuária, que se senta na Câmara dos Lordes,exortou o membros do parlamento a rejeitarem a proposta de lei juntamente com outros dirigentes confessionais.

O anterior arcebispo de Cantuária, Lord Carey, defendia que a morte assistida devia ser legal, dizendo que uma tal medida seria “profundamente cristã e moral”. Tutu escreveu: “A sua iniciativa tem a minha bênção e apoio – assim outras semelhantes no meu país, África do Sul, nos Estados Unidos e em todo o mundo.”

Tutu também tem sido uma voz na defesa dos direitos das mulheres, um acérrimo opositor da homofobia, um ativista contra a pobreza, a favor das pessoas com VIH/SIDA e sobre as alterações climáticas. Presidiu à Comissão de Verdade e Reconciliação na África do Sul após o apartheid. Nelson Mandela descreveu-o como a “voz dos que não têm voz”.

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“Que serais je sans toi?”

Quantas pessoas como Marie haverá em Portugal?

“O que será de mim se tu desapareces? O que farás se eu morro? Se tu desapareces, não conseguirei matar-me!”. Foi assim que, ao começo de uma destas noites, Marie se dirigiu ao marido Daniel (nomes fictícios). São cidadãos de um país em que a morte assistida continua criminalizada e têm mais de 85 anos. Daniel é desde há muito adepto da morte assistida e colocava-a como uma possibilidade para si próprio. No entanto, a mulher recusara-se sempre a discutir o assunto.

Há dois anos, Marie teve alguns AVC, de que resultou uma paralisia de toda a parte esquerda do corpo e danos cerebrais severos. Danos que, apesar de tudo, lhe permitem ter conhecimento do estado lamentável em que se encontra, embora não consiga acompanhar raciocínios elaborados e viva num estado de grande ansiedade, por vezes dir-se-ia mesmo que de pânico, que só a presença do marido consegue apaziguar.

Uma vez, Marie e Daniel ficaram estendidos toda a noite no chão de um dos seus compartimentos: Daniel fora incapaz de impedir que Marie caísse, mas ele próprio magoara-se e não tivera forças para se levantar, muito menos para levantar a mulher. Tiveram de esperar no chão pela manhã seguinte, quando chegasse a antiga empregada, que tinha a chave da porta.

Daniel tem-se queixado ao longo destes últimos anos da falta de informação credível por parte dos médicos, assim como da sua falta de empatia. Como se Marie já não contasse para o mundo dos vivos, como se o caso estivesse encerrado e Daniel fosse um estorvo por ainda fazer perguntas pertinentes sobre o estado da mulher.

O casal tem filhos, mas a viverem em cidades longínquas.

Muito boa pessoa, Daniel recusa a ideia de internar a mulher num lar. Conhece bem o péssimo funcionamento da maior parte dos lares do seu país (que diríamos dos nossos?) para colocar essa ideia. Esse foi um conhecimento traumático obtido com familiares internados. Mesmo que a mulher já não o reconhecesse, penso que se recusaria na mesma a interná-la – não conseguiria aguentar o sentimento de culpabilidade. Pior ainda numa situação em que Marie precisa tanto dele para ter os seus terrores acalmados.

Daniel diz-me: “A pergunta que Marie me dirigiu naquele fim de tarde exigiria uma resposta e uma solução inencontráveis na legislação, na opinião política e médica do meu país”.

A questão seria diferente se no país de Marie e Daniel a morte assistida estivesse despenalizada e houvesse também disposições de fim-de-vida em que a possibilidade de a pedir, em determinadas circunstâncias, estivesse prevista. Ou talvez não fosse assim tão simples. Quantas vezes é que Marie dá mostras da lucidez manifestada nas perguntas que dirigiu ao marido? Voltamos à velha questão bíblica: “Quantos justos será necessário encontrar para salvar Sodoma?”. Quantas respostas “verdadeiramente” lúcidas? Mas, claro, é melhor a sociedade não querer saber nem querer debater estes casos e deixar as famílias – neste caso, um cônjuge de mais de 85 anos -, arcarem sozinhas com este pesadelo. Quanto à classe médica em particular, não gosta de ser incomodada com casos difíceis, é melhor responder com a antipatia, a ver se, neste caso, o marido desiste de aparecer.

Na situação de Marie, Daniel diz-me que estão milhares de pessoas no seu país. E quantas em Portugal? E em que condições? Nos “defundos” de muitos lares, para utilizar o termo significativo do nosso sociólogo José Machado Pais?

Lembro-me de um médico amigo me ter dito, em relação ao fortíssimo AVC que atingira um colega mas que o deixara vivo, embora completamente “desfeito”: “Pena o INEM não ter aparecido seis minutos antes ou seis minutos depois”. Já não me recordo ao certo dos minutos que mencionou, a questão era óbvia: “antes”, para o conseguirem “ressuscitar” para uma vida decente, “depois”, para não o “ressuscitarem” para uma “vida” daquela ordem.

E foi ao pensar na vida aflita de Marie e Daniel que me surgiu do fundo da memória este título retirado de uma famosa e antiga canção cantada por Jean Ferrat, “Que serei eu sem ti” (trad. livre), baseada em estrofes extraídas de um longo poema de Louis Aragon.

Laura Ferreira dos Santos

Docente aposentada da Universidade do Minho, autora de A Morte Assistida e Outras Questões de Fim-de-Vida (laura.laura@mail.telepac.pt)

in Público, 7 de Setembro de 2916