O “Estado assassino” da “geringonça” (Manuel Loff)

O ressentimento contra os acordos à esquerda produz desvario populista na chamada “análise” política. À direita, nem todos partilham o cuidado com que a Conferência Episcopal Portuguesa tem assumido para não deixar resvalar o debate para o terreno estritamente político nem para a confrontação entre crentes e não religiosos, evitando a insinuação de que o não crente desprezaria o valor intrínseco da vida, tomando-o como monopólio do mundo da espiritualidade religiosa – apesar de andar há anos numa agressiva campanha contra o que chama “a ideologia de género” (linguagem partilhada com a extrema-direita política e religiosa).

Nos últimos dias, dois sociólogos séniores, propuseram explicações exóticas sobre o tema. Um católico (Luís Salgado de Matos), num texto cujo título diz tudo (“Um Estado Assassino legitimado pelo Ataque à Religião”, blogue Estado e Igreja, 5.2.2017), o outro (Manuel Villaverde Cabral) “pertencendo a uma ‘3.ª geração de ateus'”, concordam que os proponentes (Cabral destaca o BE “na sua insana busca de ‘questões fracturantes'”, Matos refere os “dois partidos comunistas” portugueses para designar o BE e o PCP, que nada propôs) tratam “sobretudo, de desviar a atenção do essencial da situação portuguesa actual” (Cabral, Observador, 13.2.2017) e de querer “discutir o modo de dar ao Estado o direito de nos matar se nos declararmos infelizes”, em vez de discutir “uma crise económico-financeira endémica, que tira a esperança aos portugueses e contribui para lhes dar infelicidade” ou “a situação no Médio Oriente deixa prever o agravamento das ameaças (…) que impendem sobre o nosso território”, ou as “ameaças à integração dos Açores e da Madeira em Portugal” (?!). E porque lançariam os “dois partidos comunistas” um debate que Matos acha “o mais mortífero desserviço da classe política ao país”? Para compensar terem “virado a casaca” com os acordos com o PS de 2015, o que faria com que, agora, “[vendo] nas sondagens que o seu eleitorado lhes foge”, teriam que, “para o conservar, que inventar novas reivindicações, as chamadas roturas civilizacionais” – por exemplo, a eutanásia!

Argumento extraordinário, considerando que, segundo Matos, “o PCP conta com uma clientela mais envelhecida, que sensatamente teme ser vítima da legalização da eutanásia” – supõe-se porque seria “assassinada” pelo Estado… -, “e por isso não quis colocar-se na primeira linha da eutanásia; mandou os ex jovens Os Verdes avançar”. E assim ganhariam mais votos?… Ou, veja bem, “será assim que o Bloco e o PCP querem equilibrar as contas do Serviço Nacional de Saúde?” É que, diz ele na passagem mais ofensiva da memória histórica, não só “a eutanásia legalizada é uma forma de nazismo na qual os fortes convencem os fracos a pedirem para serem eliminados”, mas tem também “inequívocas mas inconfessadas vantagens financeiras para o Serviço Nacional de Saúde”. Para Cabral, “se por infelicidade a petição do BE fosse por diante, isso não faria mais do que abrir a porta ao comércio da morte.” Afinal, pelos vistos, a esquerda quer mesmo discutir a “crise económico-financeira”…

Nada disto é sério! Num debate que atravessa o interior das comunidades puramente imaginárias de crentes e não crentes, e em que Jerónimo de Sousa recusa poder ser “um confronto entre ateus e religiosos, médicos e juristas, entre esquerda e direita” (Lusa, 9.2.2017), sustentar que “o essencial” nele “é a total reversão, por parte da ‘geringonça’, dos valores políticos, económicos e financeiros que estão na base da adesão de Portugal à então CEE há mais de 30 anos!” (Cabral) é de um surpreendente nível comicieiro.

Vale a pena recordar que a morte assistida está legalizada quase só em alguns dos Estados mais prototípicos dos tais “valores ocidentais”?: os três países do Benelux, a Suíça, o Canadá, quatro estados dos EUA (Oregon Washington, Vermont, Califórnia) e dois outros (Montana, Novo México) a caminho; duas províncias da Austrália. É verdade que Marine Le Pen os acha na vanguarda da “decadência ocidental”…

Publicado no jornal O Público, no dia 21 de fevereiro de 2017

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