Para tudo há um tempo (João M. Pereirinha)

“Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus: tempo para nascer, e tempo para morrer, tempo para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado”, Eclesiastes 3:1,2.

Para mim, não há assunto mais difícil de abordar do que a morte. Não é por acaso que, não só o meu primeiro livro, “dois versos” (2013), como um dos primeiros textos do meu blogue, há 9 anos, giram em torno dessa dicotomia, que é a inexistência da vida espelhada na morte. Um tema e uma questão que me assaltou várias vezes e sem qualquer tipo de prevenção, sobretudo no último ano e meio. Primeiro com a perda do meu avô, depois e mais recentemente com a morte da minha avó. Nunca entendi a dinâmica ou a fórmula específica dos funerais, independentemente do seu credo ou ritual. Só me lembro da dor. Da dor daqueles que partiram e da dor daqueles que ficaram. Essa dor é fabricada algures num canto específico e escuro do universo que ainda não compreendemos. Uma dor que vem para nos atormentar nos momentos mais sombrios da nossa vida. Uma dor que não tem explicação. Uma dor que dói tanto que deixa de se sentir. Sofre-se. Vive-se. Viver em sofrimento não é exatamente vida.

Na última semana instalou-se o debate público sobre a discussão levada ao parlamento acerca da “Morte Assistida”. Esta discussão partiu sobretudo da mobilização promovida, já há algum tempo, do movimento “Direito a Morrer Com Dignidade – Movimento Cívico para a Despenalização da Morte Assistida”. No seu manifesto e na petição, o movimento entente, de forma bastante clara, a Morte Assistida como o “ato de, em resposta a um pedido do próprio – informado, consciente e reiterado – antecipar ou abreviar a morte de doentes em grande sofrimento sem esperança de cura”. Salientando que “nas suas duas modalidades — ser o próprio doente a autoadministrar o fármaco letal [Suicídio Assistido] ou ser este administrado por outrem [Eutanásia] — é sempre efetuada por médico ou sob a sua orientação e supervisão”. É explicado ainda que “a Morte Assistida não entra em conflito nem exclui o acesso aos cuidados paliativos”, nem o investimento neles, tendo a consciência que estes “não eliminam por completo o sofrimento em todos os doentes nem impedem por inteiro a degradação física e psicológica”. Da mesma forma que também é salientada a existência de direitos como “o consentimento informado, o direito de aceitação ou recusa de tratamento, a condenação da obstinação terapêutica e as Diretivas Antecipadas de Vontade (Testamento Vital)”. A forma clara como a questão é abordada retira de campo qualquer questão paralela, como os “fundamentos confessionais” com que muita gente tem entrado no debate.

Falamos tanto de nós, que nos esquecemos que as regras do espaço público não são feitas para preencher o vazio da nossa efemeridade. Embora seja um valor absoluto, a vida não é uma obrigação transversal. Nem muito menos um “dever irrenunciável”. A vida é cheia de pequenos detalhes intransmissíveis.

Claro que todas estas questões se esbatem depois nas escolhas individuais. Mas não é na vontade de cada um, no preciso momento em que expressa, agora, a sua opinião acerca da vida, que se quer centrar o debate. O debate deve ser sempre centralizado na liberdade e na possibilidade de escolha daqueles que, porventura e em caso excecional, se encontrem nesta situação em específico. É, portanto, um enorme exercício de transcendência.

Da mesma forma que é um debate que transcende, e muito, a esfera de atuação dos médicos e dos profissionais de saúde em geral, ou de todos os que advoguem o direito à objeção de consciência. Além disso, a forma como se tem colocado a questão, no binómio “a favor”, ou “contra”, é também um pressuposto errado, que parte da assunção de que a maioria das pessoas sabe do que se trata e por isso deve ter uma opinião e ponto vista definidos. Não é verdade. A maioria de nós limita-se a discorrer sobre a morte que conhece.

Portanto, é natural que muita gente confunda o tema com outros temas. Que muitos dos exemplos dados, da jovialidade de quem diz aceitar a dor, ou da tacanhez de quem parece ter um discurso mais ou menos depressivo, sejam maus exemplos. Que alguns dos argumentos de outras questões, como do aborto (que em Portugal foi referendado há 10 anos), sejam reciclados nesta matéria. Ou que as objeções religiosas sejam continuamente levantadas. Lamento, mas todos esses argumentos estão errados, não fazem sentido, e alguns deles nunca fizeram. A questão em apreciação reside na liberdade geral de pôr um fim determinado e consciente à própria vida, por parte de quem se encontre numa situação específica, exclusiva e única, de dor, de impasse e de invalidez perpétua. É por isso que é difícil entrar no debate.

Claro que, por outro lado, pelo facto de ser uma decisão consciente, sem pressões de terceiros ou qualquer outra motivação, a lógica esbate-se posteriormente com o condicionamento da dor. Mas é precisamente por isso que é ainda mais importante que sejam discutidos os procedimentos e a forma de acompanhar cada um dos casos em particular – onde se excluem crianças ou doentes mentais – com um apoio multidisciplinar. Só isso, não o contrário, é que pode ajudar a evitar qualquer proliferação da morte generalizada. Ou a contínua negligência e indigência da morte como a temos hoje. É mais provável salvar uma vida, uma consciência, uma alma num momento de impulsividade quando damos a liberdade para as pessoas exporem e exercerem a sua vontade, de forma aberta e acompanhadas por especialistas, do que ao remetê-las ao silêncio e à dupla dor da humilhação de sofrer e agir em segredo e na penumbra da ilegalidade. A escolha da morte é feita apenas por quem pretende travar uma agonia permanente perante uma morte certa em momento indeterminado e sem qualquer alternativa.

Quem somos nós para julgar essa necessidade da morte? Sei tão pouco das intermitências da vida que o debate da morte alheia me parece uma tarefa hercúlea. Só conheço da morte aquilo que ela me levou. E conheço da dor aquilo que ela me deixou.

Se sei aquilo que algum dia poderia desejar nessa posição? Não sei. Talvez me agarre com unhas e dentes aos espasmos que me restem de vida. Talvez abrace o vazio do escuro infinito e inerte, ou as nuvens celestiais, ou o nascer de outra vida ou, quem sabe, a deambulação permanente como espectro. Sei lá. Lá saberei. Só sei que desta forma não posso escolher.

Eu sei que em mim esse debate será efemeramente eterno, até ao último instante. Mas também sei que não sou ninguém para impor esse debate a quem já tenha decidido que o valor da vida se sobrepõe àquilo que está a viver, inferior, doloroso, insuficiente, incapaz de lhe reanimar qualquer sentido ou agitação. Sei que nem todos temos os mesmos valores, mas também sei não há ninguém, muito menos eu, que tenha o direito de exigir a outrem o perpetuar de uma dor irreversível, física e/ou psicológica, constante e insuportável. Da mesma forma que sei que só é possível ajudar as pessoas a viver, a criar espaços de desabafo e ou de solidariedade se dermos a oportunidade a todos de escolherem a sua autodeterminação, de forma regulada e séria.

Com isto tudo, matei mais uma hora. Foram-se outras tantas células. O meu peito deu solavancos com os soluços da memória de quem vi partir em agonia, das lágrimas que derramei na despedida, dos abraços que dei ou recebi noutras despedidas. Das histórias que me contaram. Mas a verdade é essa, enquanto a minha vai partindo, sei que a vida de ninguém me pertence ou pertencerá, senão a eles próprios. Portanto, que sejam livres até ao último instante.

© João M. Pereirinha, ler mais em: http://vetoresdainutilidade.com/para-tudo-ha-um-tempo-42686

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