A esperança não é a última a morrer (Rosário Gama)

Ela era uma Mulher inteligente, sensível, divertida, generosa, realizada, com uma alegria de viver que se traduzia no seu mais pequeno gesto. Tirara o curso que sempre fez parte do seu ideário, Medicina (excelente aluna, classificações excelentes), casara com um colega, foram viver para o estrangeiro e tiveram três filhos. As saudades, ou se matavam pelo telefone ou, sempre que possível, com uma vinda a Portugal ou com uma ida dos familiares a sua casa. 

Até que um dia, véspera de Natal, através de um telefonema, ouvi a sua voz, com uma entoação ligeiramente diferente da habitual: “Tenho duas notícias para te dar, uma má e outra boa. Começo pela má, tenho um cancro na pâncreas!” Gelei e, já com a voz embargada pelos soluços, perguntei-me o que é que poderia ser bom, no meio desta catástrofe que se abateu sobre nós. E ela acrescentou: “A boa, é que posso ser operada”.

Eu sabia que ela não acreditava que a operação fosse eficaz, todos sabíamos, todos fingíamos acreditar que sim, e ela, sempre firme, continuou a fazer a vida o mais normal possível, entre os tratamentos de quimioterapia, duas viagens a Portugal, e o seu trabalho de pediatra no hospital, até um mês antes de morrer. Apesar de católica, praticante, numa das suas conversas sobre um possível desenlace, comprometeu toda a família a garantir que o seu sofrimento, desde que insuportável, não deveria ser prolongado, não queria que lhe prolongassem a vida artificialmente, queria morrer com dignidade.

Quando chegasse o momento, se ela já não conseguisse manifestar a sua vontade, a família devia agir consoante o seu desejo. E assim foi: a 28 de Julho do ano seguinte foi internada e foi-lhe induzido o coma, que havia de se prolongar até à morte. Morreu em paz, no dia 30 desse mês, com 56 anos de idade. Este testemunho real, de uma familiar muito querida, contribuíu também ele para a minha reflexão sobre “morrer com dignidade”, embora, neste caso, estejamos na fronteira entre a eutanásia passiva (retirada do tratamento que suporta a vida) e a ortotanásia (suspensão ou minimização de tratamentos desproporcionados destinados a prolongar a vida para além do que seria natural no estado terminal do doente).

Seja qual for a nomenclatura, importa realçar a vontade expressa da doente e o cumprimento dessa mesma vontade. Tal como diz o Manifesto que subscrevi: “O direito à vida faz parte do património ético da Humanidade e, como tal, está consagrado nas leis da República Portuguesa. O direito a morrer em paz e de acordo com os critérios de dignidade que cada um construiu ao longo da sua vida, também tem de o ser.


Quem não comunga destas convicções, nunca recorrerá a esta opção mas não deve impedir quem, de forma consciente e informada, tenha manifestado previamente essa vontade. “Despenalizar a morte assistida”, não significa “promover a morte assistida”, significa sim, um último recurso, uma última liberdade, um último pedido que não se pode recusar a quem se sabe estar condenado. A Esperança não é a última a morrer… Ela morre e cada um fica entregue a uma decisão que pode e deve contribuir para o fim que escolheu de forma autónoma, consciente e convictamente.

(texto publicado no site da Revista Sábado, em 1.02.17)

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