Laura Ferreira dos Santos, um outro adeus

Texto de Nuno Pacheco, publicado no Público

 

Foi há pouco mais de um mês que saiu no PÚBLICO o seu último artigo, mas ninguém sabia que seria mesmo o último. Laura Ferreira do Santos, professora aposentada da Universidade do Minho, era o rosto do movimento Direito a Morrer com Dignidade, mas era mais do que isso: era uma voz informada, serena, partidária natural das suas convicções e corajosa a defendê-las. Morreu no dia 16 de Dezembro, três meses depois do desaparecimento físico de outra figura cimeira desse movimento, o médico nefrologista João Ribeiro Santos, no dia 4 de Setembro, com 72 anos. Laura tinha 57 e há anos que lutava contra um cancro da mama, como ela explicou em Fevereiro passado à revista Visão: “Tive um cancro da mama em 2001, uma recidiva em 2007 e desde 2011 que tenho metástases ósseas. Há pouco tempo apareceu-me uma grande metástase na coluna, que aumentou muito e me dá dores permanentes e insuportáveis. Fui operada para tentar atenuar estas dores terríveis, mas não resultou. Nada parece resultar.” Por isso, ela queria ter “o direito a não morrer aos bocadinhos.” E é aqui que entra a defesa da despenalização da eutanásia, de que Laura foi pioneira em Portugal e que deu origem ao movimento Direito a Morrer com Dignidade (dezenas de personalidades aderiram ao manifesto por ele divulgado, como António-Pedro Vasconcelos, Júlio Machado Vaz, João Semedo, Alexandre Quintanilha, Francisco Louçã e José Júdice, entre outros) e cuja petição, por ter reunido mais de oito mil assinaturas (mais do dobro das necessárias) será discutida no Parlamento em 2017.

No mesmo mês em que falava à Visão, numa das mensagens que trocávamos por causa dos seus artigos, Laura dava assim conta do seu estado de saúde: “[Estou] na altura mais crítica da minha vida até agora – a cirurgia à coluna não fez efeito, terei de tentar a radioterapia e ando cheia de dores”. Mas não se pense que, devido à sua luta, menosprezava a vida. Bem pelo contrário. A causa por que batalhava tinha sobretudo a ver com o direito à renúncia a um excesso de sofrimento, nunca por intervenção do Estado ou decisão de entidades externas, mas por vontade explícita e consciente do próprio. Com esse objectivo, que não é pacífico na sociedade portuguesa, polemizou (nas páginas do PÚBLICO e não só) com alguns dos defensores do direito inalienável à vida como Isabel Galriça Neto ou José Maria Seabra Duque. Não foi, nessa polémica, uma voz isolada, outros se lhe juntaram na defesa de idêntico ponto de vista, mas foi, sempre, uma voz ponderada e argumentativa, para que a discussão não se ficasse por antagonismos básicos mas fosse mais longe no olhar sobre a realidade. E isso hão-de reconhecer até os que se empenharam em contradizê-la: Laura Ferreira dos Santos não era uma polemista primária, antes alguém que mergulhou a fundo neste tema e quis levá-lo até ao fim.

No artigo Se os mortos falassem…, publicado no dia 1 de Novembro, dizia Laura Ferreira Santos (que era católica): “Eu já escrevera previamente que não reconhecia autoridade ao Estado, esse monstro frio como lhe chamava Nietzsche, para se pronunciar sobre a não-dignidade de quem quer que fosse. Mas exigia que respeitasse a minha dignidade quando estavam em causa as minhas convicções íntimas e reflectidas sobre a vida e a morte. Por outro lado, só se pretende que o Estado legisle no sentido de, respeitando a dignidade das pessoas, lhes dar uma última liberdade.” E num outro, anterior, a que chamou Para memória futura (publicado em 28 de Setembro), lembrava deste modo o então recém-desaparecido João Ribeiro Santos: “Encontrei nele um homem inteligente e culto, honesto, terno e compassivo, cheio de humor apesar da doença, entusiasmado com a ‘causa’, sem qualquer sede de protagonismo. Neste últimos anos, muitos desesperados lhe devem e-mails de conforto e carinho. Tenho saudades das nossas conversas frequentes ao telemóvel, pois já eram conversas de amizade. Que outros possam substituir com o mesmo empenho aqueles que partem.”

Com a morte de Laura Ferreira dos Santos, Portugal perdeu uma voz lúcida e frontal, por incómoda que possa ser, para alguns, a causa que abraçou. Que a discussão prossiga, no nível a que ela a elevou.

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