“Não nos dêem só cuidados paliativos!”, opinião de Laura Ferreira dos Santos

Nos debates que se têm travado em Portugal sobre morte assistida, alguns dos seus opositores têm dito que os cuidados paliativos (CP) seriam capazes de eliminar toda a dor (e talvez também todo o sofrimento…), sendo então desnecessário despenalizar a morte assistida. Vejamos.

Ninguém nega a necessidade de haver CP de qualidade – muito pelo contrário. Mas é uma ilusão pensar que os ditos cuidados são capazes de, em qualquer circunstância, eliminar toda a dor e sofrimento. Até a própria Drª Galriça Neto, adepta desta posição, teve de ouvir, sem objecções, o que uma advogada lhe comunicou num debate televisivo de 7 de Março deste ano na SIC Notícias: um relatório da Entidade Reguladora da Saúde concluíra que, numa escala de zero a dez, os doentes de CP qualificavam a sua dor física em cinco e o seu sofrimento existencial em seis. Onde estão então os milagres dos CP?

Mas mesmo que os CP fossem capazes de retirar toda a dor física ao doente, ficava a questão da liberdade: se os CP estão a ter dificuldade em controlar a minha dor e sofrimento, ou se eu simplesmente não quero morrer aos poucos, sujeita a experiências sucessivas, tantas vezes desgastantes, para tentarem atenuar a minha dor e sofrimento, preferindo morrer de uma só vez mas sem dor e em segurança, porque é que me hão-de negar o direito a uma morte assistida? Que despotismo de Estado é este que me quer ver sempre morrer aos poucos, mas me proíbe a possibilidade de ser ajudada a morrer de uma vez em caso de doença que inevitavelmente me vai conduzir à morte?

Infelizmente, tive já de recorrer aos CP, que me trouxeram uma experiência de horror: vómitos, náuseas, falta de apetite e consequente emagrecimento rápido, obstipação crónica, alterações ao nível dentário, aumento do linfedema do braço direito, problemas de estômago, fígado e rins, má disposição durante meses. Infelizmente, o meu organismo não reage bem a medicações. Por vezes, nem a medicações naturopatas. E há quem sofra muito mais em situações agudas de dor, com necessidade de que lhe limpem regularmente as secreções da “garganta”, incapazes de largarem as bombas de oxigénio, sendo muitas vezes difícil respirarem, há casos de vómitos fecais (“o que não sai por baixo, sai por cima”), etc, etc. Se os médicos de CP falassem de todos os filmes de terror que já lhes passaram pelas mãos, muito fariam no sentido de nos ajudarem a esclarecermos as nossas ideias.

A World Federation of Right to Die Societies aceitou a proposta de 2008 da ADMD francesa para consagrar o dia 2 de Novembro como o dia Mundial do Direito a Morrer, a escolher o tempo da nossa morte inevitável. Que os opositores saibam respeitar a minha dignidade a uma escolha íntima sobre o sentido da vida e da morte, evitando que passemos os últimos dias da nossa vida agarrados angustiadamente à net na busca do produto letal que nos possa dar uma morte segura, ou a traduzir relatórios médicos para uma associação estrangeira de apoio à morte assistida.

Laura Ferreira dos Santos, Profª Aposentada da UMinho, co-fundadora do Movimento Direito a Morrer com Dignidade.

Publicado na Revista Rua

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