In memoriam da cagança do intento

Artigo de Jorge Manuel de Castro, Revista da Ordem dos Médicos, 167, Março de 2016

Na passada noite de 3.01.2016 faleceu a cagança do interno. Num hospital. Rodeada de enfermeiros e de toda a paliação. Faleceu um coração de ingenuidade. Na minha ingenuidade pura de médico que vai salvar tudo e todos. Apagou-se o cigarro triste, que fumei com prazer até sentir uma tosse de cancro metastizado da minha cagança.


Chamado por uma simples dispneia, quem se afogou em preparação de colonoscopia fui eu. Retornado de férias e de força de quem acaba de entrar no seu 3.º ano de especialidade, acreditei nessa cagança. Já não tomei o propanolol de outros tempos. Pela primeira vez estava confiante e não precisava de 8h de semi-vida de falsa bradicardia. Aquele telefonema foi apenas mais um. Foi “o mais”. Foi o abre olhos da corda bamba de piano que rebentou pela embriaguez da força de querer tocar sempre mais e melhor. Não tremi com o irónico som de toque daquele telemóvel de Urgência Interna que habitualmente serve para a prescrição do captopril ou do lorazepam em SOS. Era apenas uma senhora que tinha aspirado a preparação de colonoscopia.

Enquanto subia ao quarto ia pensando: optimizas a broncodilatação, pedes rx do tórax, mandas aspirar secreções, e na pior das hipóteses pões piperacilina/tazobactam se a aspiração for feiosa. Contudo, a noite seria em branco, e a pegada na minha cagança seria indelével. Confesso que me senti narcísico quando aliás percebi que era o elemento mais velho daquela equipa multidisciplinar. Fiz o protocolado. Fui ousado. Fiz o que sempre aprendi dos melhores. E não chegou.

Com um lactato de 4,5mmol/L na gasometria e uma FC de 186bpm vi logo que havia algo mais do que uma aspiração. E senti cagança por ver além do imediato. Não a guardei para mim e quis dar cartas. Disse aos enfermeiros com aquela cagança de 3.° ano que havia ali mais qualquer coisa. Eles olhavam com misto de respeito e desdém (“este deve achar que é o maior…”). Não vacilei. Era a minha urgência interna e ia triunfar desta vez. Cagança? Cagança. Liguei aos intensivos e ao cirurgião assistente. Estabiliza e reavalia. Assim fiz. Este nocturno de Chopin prometia insónia.

– Anúria? Algalie-se.

Surpreendido fui então. À algaliação constatei conteúdo castanho fétido. Uma fístula qualquer desafinou-me a cagança. Tinha 87 anos. Mas era autónoma e cuidava do marido, acamado. Shock séptico pela certa. Com tudo optimizado e com SpO2 80% e FC 186bpm. Critérios de SIRS, Jorge, fizeste curso de sépsis! Uma correria para a TAC, confirmado pneumoperitoneu… E agora?

Dei tudo. Toquei piano até me doerem os dedos. Anestesia, Cirurgia, UCI, acordei todos os tutankamons. À entubação saíram no mínimo 500mL de preparação. Eu ia salvá-la. Cagança. Somente cagança. Convenci tudo e todos. Pus a senhora no bloco às 5 da manhã. O cirurgião acabou já o nocturno tinha acabado e o sol nascera. Cólon à pele, ureteres à pele, uma vaga na UCPA, um ventilador, um sucesso da Medicina Interna.

Ao 1.° dia de pós-operatório morreu.

Fechei-me no meu castelo narcísico e toquei piano quando soube da baixa. Catarticamente. Não adormeci. Fui correr para o paredão às 22h30. Até me doerem as pernas das cãibras de um tecido que afinal era adiposo, cheio de cagança de quem já ensina a fazer gasometrias a alunos de 6.º ano e põe CVCs sem supervisão. Como se o suor me pudesse libertar dessa cagança. Corri, corri até não poder mais. Bati a 186bpm. Não me libertei. Morri à sede com os pés na água, tal era a sede de sucesso. E engoli todo o sal da noite anterior. A minhadoctor motherboard não está programada para falhar. Morte com dignidade. Paliação. Não, nunca me ensinaram isso na faculdade. Morrer num hospital com um tubo e sem família é que é qualidade. A sociedade cada vez mais vê o hospital como fim de linha e sinónimo de boas práticas. Tanto faz que chegue em rigor mortis na ambulância.

Há tempos fiz um curso de Cuidados Paliativos onde, entre outras coisas, nos mostraram um inquérito, onde resumidamente dizia isto: os inquiridos afirmavam que preferiam que os familiares morressem num hospital, rodeados de todo o “conforto” da Medicina do séc. XXI. Mais à frente, quando questionados sobre a própria morte, preferiam morrer em casa, rodeados da família, e sem manobras invasivas. Sem invasão desse momento. Sem esse pianista frio que é o médico e que só vê o piano como instrumento do seu prazer, da sua realização. E que se embrulha em todo o orgulho de som e se esquece que está num concerto. E que toca não para si, mas para um público que o venera e por isso paga um bilhete no CCB. Sabe tão bem o reconhecimento dos pares. A menção honrosa. Mas um pianista a tocar uma “cagatta” em mi menor é um mero… Sei lá, tetraplégico que acha que sabe tocar?

Os antigos ainda têm essa consciência da morte. E respeitam-na. E sabem-na inadiável e por isso querem um bilhete em primeira fila para o seu própriorequiem. Como a minha avó que conta que a mãe dela morreu ao 40 e tal de anemia na cama da família, de madeira não sei de onde (que várias pessoas já quiseram comprar e tudo porque é de uma madeira com mais de 150 anos e não há igual), rodeada do marido e dos quatro filhos, em Rabo de Peixe, nos Açores. Haverá beleza mais bonita que esta manifestação de respeito e amor? Nas antípodas da senhora que, na minha cagança reiterei que era para operar, e morreu numa UCPA longe daqueles que amava, com carinho de quem cuida é certo, mas com esse misto de frieza e ausência de reflexos do tronco a que a nossa motherboard nos formatou. E um marido ficou abandonado, acamado e sem cuidador.

Que Medicina é esta onde há sempre um meropenem para uma velhinha sem vida de relação? Que Medicina é esta onde as neoplasias em estádio terminal morrem não da neoplasia per se, mas sim de neutropenia da quimioterapia dita “paliativa”? Há conforto e controlo de sintomas em prolongar um inadiável fim? Há dignidade em prolongar dois, três anos de vida com um colchão antiescaras, uma cama articulada e uma sonda nasogástrica num lar?

Perdão, diz-se casa de repouso (estamos em cascais…).

Recordo também que no dia seguinte a essa urgência interna dei alta a um toxicodependente. Orientado à consulta de VIH, onde aliás já era seguido. Estava em programa de metadona. Cumpria a medicação. Ia ao CAT buscar a sua metadona. Tentei reinseri-lo. Remar, Exército da Salvação. Tudo. Mexi mundos e fundos. Conversas intermináveis com a Assistente Social (à pala disso ainda ganhei umas trufas de chocolate). Ainda recordo o olhar de súplica da mãe a pedir o impossível. No fim, acabámos por lhe dar umas mantas e um casaco, junto com a nota de alta médica e de enfermagem. Conscientes de que ele ia sair dali e voltar a consumir e a dormir na casa abandonada da Av. Marginal. Era maior e vacinado, não o podia obrigar a nada, recusou tudo. A minha liberdade acaba onde começa a dele. Mais uma vez não fui formatado para esse falhanço. Tratei-lhe a brutal pneumonia, com hepatização pulmonar, PCR de 34mg/dL e acho que com o meu bater de teclas lhe subi um bocadinho os CD4… Dois dias depois, quando ia para casa de uma amiga, para um jantar desses onde bebemos gin com uma raspa de laranja (que agora está na moda) e falamos dos nossos sucessos cada vez mais frequentes (somos todos internos de 3° ano, Oncologia, Medicina Interna, Gastroenterologia, Cirurgia Geral e Ortopedia, uma autêntica equipa multidisciplinar) encontrei o doente à beira de um café de minha casa enquanto eu esperava o verde do sinal, a fumar o seu cigarro. Virei a cara. Não consegui encarar a vergonha da minha cagança.

Sinto-me um Schindler e choro, pensando que o meu relógio ou o pólo da ralph lauren podiam valer um judeu a menos na câmara de gás. Sinto-me a crescer. E comigo crescem as perguntas. Adoro a minha especialidade a que muitos chamam o “caixote do lixo”, o depósito quando as “senhoras especialidades” já não sabem o que fazer, a “Merdicina Interna” que alguns hipócritas apelidam. Como me explicou uma interna mais velha, quando começas o internato de Medicina Interna sentes-te um ponto, o centro de uma circunferência da qual conheces o limite do teu saber. Com o tempo vais aumentando o teu conhecimento até chegar ao limite dessa circunferência. E chegas a uma altura no internato em que achas que já sabes alguma coisa, e desenrascas a maiorias das patologias. Chegas ao platô desse raio. Explicou-me também que depois há uma viragem no internato. Quando percebemos que essa circunferência é apenas o ponto de uma circunferência maior, não sei se infinita, com tudo aquilo que te apercebes que existe e que ainda não sabes. Começas a ser médico quando te dás conta desse abismo. Das sonatas que faltam aprender. Esqueceu-se apenas de me dizer que esse limite era a cagança. E agora passei para o outro lado. Por isso hoje enterro esse mesquinho eu. Passei a uma nova fase? Ou sou apenas um holístico, um Chopin que se crê deus vestido de vmer fluorescente?

Concluo por fim que existe um sentimento narcísico de ter uma vida nas mãos, de saber que podemos invadir essa dignidade. Somos ensinados a curar. Morrer num hospital, ou é erro médico, ou de enfermagem… Como é possível morrer num hospital? É possível sim. Enquanto não nos ensinarem que os concertos acabam. Que os pianistas se cansam. Enquanto não houver uma cadeira de “dignidade em fim de vida” nas faculdades. Enquanto não nos ensinarem a sair no fim da linha de metro da assistolia.

Na passada noite de 3.01.2016 faleceu a cagança do interno.

Escrito de acordo com a antiga ortografia

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