A morte

Crónica de José Gameiro, Revista Expresso, 20.02.2016

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Fui um dos signatários do manifesto sobre a eutanásia. Naturalmente que a posição sobre esta questão é influenciada mais pelas nossas convicções do que pelo conhecimento científico. Não posso deixar de rebater a posição publicada pelo meu colega Pedro Afonso, no “Observador”, que entre outros exemplos do risco de aprovação deste procedimento, aponta o dos doentes deprimidos graves, com ideias de suicídio quase permanentes, que não respondem aos sucessivos tratamentos. Para este psiquiatra existiria o risco de se poder aplicar a eutanásia nestes casos. Esta ideia é profundamente manipulatória, cientificamente errada, revelando um desconhecimento que só pode ser justificado pela suas convicções.

Nunca um doente deprimido poderá ser sujeito a eutanásia ou suicídio assistido, porque, estando a sua vida em risco pela probabilidade de suicídio, não tem uma patologia em que possamos prever que vá morrer a curto prazo e em que todos os recursos estão esgotados, mesmo que o peça insistentemente. O mesmo se pode dizer de um doente oncológico, fortemente deprimido, mas em que as terapêuticas não estão esgotadas. Tantos doentes a quem foram dados seis meses de vida e viveram anos. Os médicos não devem fazer prognósticos, apenas comunicar probabilidades de estudos sérios e validados.

A medicina progrediu imenso, mas corre o risco de manter uma prática de ‘terrorismo interventivo’. Em algumas patologias, as intervenções finais, feitas em meio hospitalar, são extremamente agressivas, o oposto dos cuidados paliativos — no domicílio ou em serviços próprios —, em que o bem-estar do doente é primordial.

Acho que uma grande parte das pessoas se prepara para a morte muitos anos antes de ela acontecer. Habitualmente, este processo começa com o desaparecimento dos pais (a seguir vou eu…). É uma banalidade dizer que a morte faz parte da vida. Se fazemos da vida o que queremos, na medida do possível, penso que a preparação para a morte faz parte do mesmo percurso emocional. A negação do fim dificulta o processo de aceitação do inevitável. Mesmo sem convicções religiosas é possível morrer com dignidade, com o seu modo de ser e de se relacionar com os outros. Dizer que a morte é sempre mais difícil para os que cá ficam é um disparate tremendo. Com exceções, quem por cá continua, mais cedo ou mais tarde, vai voltar a ter prazer na vida.

O importante para os próximos dos que vão morrer é poderem falar disso, sobretudo das preocupações com os ainda dependentes, porque os “crescidos desenrascam-se” — ou não conhecemos todos viúvas e viúvos alegres? Enviá-los para um hospital, por sugestão clínica ou decisão familiar, pressionando o doente a aceitar esta solução final, é retirar-lhe o conforto da sua casa e da sua família, em troca de mais uns dias de vida e uma morte só, rodeado de batas brancas.

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