A morte assistida e a carta de Lincoln

Crónica de Laura Ferreira dos Santos, Jornal Público, 25.02.2016

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O último filme de Tarantino, Os oito odiados, situado uns anos após a Guerra Civil americana, começa com uma cena em que, numa tempestade de neve assustadora, um caçador de recompensas negro, Major Marquis Warren (Samuel Jackson), pede “boleia” a uma diligência, de modo a poder levar no tejadilho os cadáveres de três criminosos à cidade de Red Rock. Dentro da diligência está outro conhecido caçador de recompensas, O. B. (James Parks), algemado a uma mulher que vai levar para a forca na mesma cidade.

O. B. identifica o Major como sendo aquele negro envolvido na Guerra a quem o próprio Lincoln teria escrito uma carta de amizade. Devido a esta fama, dá-lhe de facto boleia, pergunta-lhe se leva consigo a carta e lê-a em silêncio.

Muitas cenas passadas, acabámos por saber que a carta fora forjada pelo Major, de modo a tentar proteger-se dos brancos esclavagistas. Mas, nessa altura de carnificina, revelar a verdade já não lhe traz más consequências.

No final do filme, só restam dois homens vivos, a caminharem rapidamente para a morte: o Major e quem seria o próximo xerife de Red Rock. E é nesse contexto que, tendo os espectadores já esquecido a carta de Lincoln, Tarantino, no que me pareceu um golpe de génio, põe o xerife a perguntar ao Major se pode ler a carta, mesmo sabendo-a falsa. Pela primeira vez, ouvimos o seu conteúdo, um rasgado e bem escrito elogio ao Major em tom de amizade. Há até nela uma nota de intimidade, quando é atribuído a Lincoln o facto de a sua Mary Todd ter acabado de chamar por ele, o que queria dizer que eram horas de se deitar. O futuro e agonizante xerife elogia a subtileza desse pormenor, amassando depois a carta e deitando-a ao chão.

Pouco tempo depois do final do filme, fiz uma associação curiosa: aquela carta falsa de Lincoln fazia-me lembrar todos os argumentos geralmente usados contra a morte assistida, como se fossem os mais verdadeiros deste mundo: nos países despenalizadores, muitíssimas mortes não são realizadas a pedido, tratando-se portanto de homicídios, facto cristalino que, dizem os delatores, vem até em fontes oficiais, fontes não mostradas por eles; na Bélgica é possível eutanasiar-se crianças de qualquer idade, a pedido dos pais ou por decisão médica (mentira que desmontei neste Jornal), “mata-se” (claro que os opositores queriam dizer “assassina-se”) quem quer que não se sinta de bem com a vida, afirma-se sem pudor que quem é a favor da despenalização se assemelha a alguém que empurra um desesperado pela ponte abaixo, classifica-se de “vítima inocente” quem lúcida e reiteradamente pede para morrer de modo a não sofrer de doença que torna a sua vida num inferno.

Como é público, sou uma doente oncológica. Escrevi 700 páginas – julgo que de qualidade – em dois livros a favor da morte assistida, vários textos neste Jornal. Quando não aguentar mais, vão dizer-me que não reflecti o suficiente? Ou os cuidados paliativos vão querer-me basicamente sedada durante inúmeros anos, contra a minha vontade e a do marido, mas com a cumplicidade ditatorial do Estado? Haja respeito pelas minhas convicções, pela minha dor e sofrimento e a de tantos outros. Se essa altura chegar, acham que será fácil separar-me de quem mais gosto? Continuarão a querer que me suicide sozinha, como parece advogar o Bastonário da OM?

Há histórias terríveis nos cuidados paliativos. Que não nos são contadas. Faça-se tudo contra a dor, mas respeitem a minha dignidade até ao fim respeitando as minhas convicções mais íntimas e reflectidas sobre o sentido da vida e da morte. Respeitem a minha vida privada, como o reclama a Convenção Europeia dos Direitos Humanos (art.º 8), vida privada não sujeita a referendos.

E, afinal, o que os detractores da morte assistida afirmam nem sequer consegue ter a bela retórica da suposta carta de Lincoln. As minhas desculpas a Tarantino.

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