Vamos falar de educação para a morte

Texto de Manuela Goucha Soares, Associação Capazes, 22.02.2016

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Dizem que a vida é uma provação e que o sofrimento faz parte do pacote, mas nunca me cruzei com ninguém que tenha tido a iniciativa de me perguntar como gostaria de morrer. A morte é um tabu social, um tema que se evita nas conversas, como se a omissão da palavra nos conferisse uma garantia de imortalidade temporária.

Na vida, a única certeza que temos é que morreremos um dia; quanto mais tarde e mais rápida for essa morte, melhor! Melhor, porque não acredito numa vida fadada para suportar a dor. Nascemos para ser felizes ou, numa versão mais modesta, tentar encontrar o maior bem-estar físico, psíquico e emocional que conseguirmos nos anos que cá andamos. Se a saúde pode ser encarada como um estado de equilíbrio físico, psíquico e emocional, é na saúde, enquanto somos fortes que, numa sociedade laica, devemos pensar na morte ou pelo menos refletir sobre a forma como gostaríamos que ela entrasse nas nossas vidas. Mas, para pensarmos no tabu que tememos, na palavra que causa arrepios, temos de ser educados para contornar e desconstruir o receio de adoecer, sofrer, e o medo de morrer.

É preciso ter coragem para tratar a morte por Tu, para lhe dizer que temos medo de morrer. Eu tenho medo de morrer, mas também tenho medo de sofrer, a dependência e o sofrimento físico assustam-me. E é por esta razão que tenho a esperança secreta de me cruzar com um médico que tome a iniciativa de me falar na morte e me pergunte o que penso dela. Isso nunca aconteceu! Talvez seja por o meu corpo nunca ter registado anomalias graves… talvez! Por mim, gostaria de poder falar destes temas na reserva de um consultório; e espero que o debate em curso na sociedade portuguesa contribua para que os profissionais de saúde comecem a abordá-los com a mesma naturalidade com que nos mandam fazer análises. Mas talvez esteja a pedir demais… talvez esteja a pedir que ultrapassem as mais secretas barreiras do pudor e das suas limitações como pessoas.

O tabu começa [via de regra] na célula dos mais próximos – a família. Na quinta década de vida, conheci poucas famílias disponíveis para falar sobre a qualidade de vida dos mais próximos, mesmo quando a dependência é irreversível. Também conheci doentes que recusaram a ideia de morrer, como se acreditassem na possível existência de um milagre. E conheci quem tenha recusado fazer quimioterapia quando achou que o tratamento oncológico só lhe prolongaria o sofrimento, e quem tenha feito o testamento vital depois de lhe ter sido diagnosticada uma doença incurável.

Acredito nos valores do Estado laico e por isso defendo o direito de cada um dar ao seu corpo o uso e destino que entender. Mas, para falar de eutanásia e de morte assistida, é preciso que a sociedade toda – e sobretudo os profissionais mais habilitados para o fazer – discutam e debatam com cada um de nós cenários concretos.

Num país maioritariamente católico, mesmo que pouco praticante, o direito a morrer com dignidade é um tema demasiado fraturante para ser sujeito a referendo. Para que a legislação venha a consagrar o direito ao exercício dessa liberdade individual, terá de garantir a montante a promoção de uma educação para a morte. Uma educação que promova o debate, afaste o tabu que paira sobre a irreversibilidade da palavra, e que explique melhor, a cada um de nós, os termos em que podemos ser confrontados com uma situação de grande sofrimento físico ou perda de autonomia. Para que essa conversa seja eficaz, é preciso passar da ideia de dependência para os exemplos concretos: está disposto a ser alimentado por sonda para sempre, a passar a ter suporte de respiração… O conceito de dor e de sofrimento são demasiado vagos e demasiado fantasmagóricos, para que uma decisão destas tenha de ser tomada sem apoio de terceiros e de pessoal especializado. Acredito que haja pessoas mais esclarecidas que sejam capazes de decidir sozinhas. Eu gostaria de decidir sobre o recurso a uma eventual morte assistida enquanto tenho saúde; por agora, só tenho dúvidas, muitas dúvidas e uma única certeza: a de que o direito deve ser consagrado em lei e acompanhado por um amplo debate elucidativo, e pela promoção dos cuidados paliativos.

No livro “Manifesto em Defesa de uma Morte Livre”, o ensaísta Miguel Real lembra que “a eutanásia é um conceito social e eticamente negativo, ligado ao eugenismo hitleriano e a médicos que matam doentes”. E porque as palavras são importantes, têm significado, ou seja a educação para debater o tema importa, “a morte livre é positiva, assenta num ato de escolha, seja através do testamento vital, seja através dos últimos desejos que a pessoa transmite à família ou ao médico”.

A morte pode ter caminhos difíceis. E tem palavras difíceis: eutanásia, morte assistida, sedação contínua e profunda… palavras que dificilmente entenderemos sozinhos, conceitos que têm de ser pensados e discutidos, sem interdições. Real, diz que “daqui a 30 anos este tema vai ser comum nas conversas entre pais e filhos”; por agora, posso pedir que a sociedade deixe cair tabus e me facilite uma educação para a morte, como melhor ou pior me deu uma escolaridade para a vida. A morte tem palavras difíceis, e exige uma ‘alfabetização ‘ para a vida. E só assim seremos capazes de pensar e depurar o significado de conceitos como eutanásia, morte assistida, testamento vital. Porque a única coisa que todos temos por certo… é que morreremos um dia.

P.S. A rede de cuidados paliativos no nosso país dificilmente dá resposta às necessidades; há uns meses fiz um contacto telefónico para uma instituição privada que presta cuidados paliativos e abri a boca de espanto quando me comunicaram que o custo mensal rondaria os 6 mil euros. Independentemente da despenalização da morte assistida, temos de exigir um reforço brutal da rede pública de cuidados continuados e paliativos (mesmo que as expressões técnicas não sejam exactamente estas) para poder atender as muitas pessoas que deles necessitam.

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Um pensamento sobre “Vamos falar de educação para a morte

  1. O meu pai morreu devido a um cancro no pulmão. Teve um fim terrível: não conseguia dormir nem um minuto. Foi difícil levá-lo para uma unidade da dor, porque era fora da sua área de residência. Felizmente eu vivia na área e acabou por ser internado, não sem resistência por parte do hospital por motivos burocráticos! Isto é, os cuidados paliativos não estão ao virar da esquina. Ainda assim, com ou sem estes, eu quero poder decidir.

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